Um Casal
Eu de pé e ela sentada ao lado das colegas, naquele ônibus, olhando pra mim, cochichando no ouvido de uma e de outra, enquanto eu suava e imaginava a causa daquele engarrafamento (aparentemente) quilométrico, fora do horário de pico, por volta de 10 e meia da manhã.
Pediu pra segurar minha bolsa. Tentei raciocinar na hora, qual poderia ser o motivo daquela caridade gratuita, já q ela nunca tinha me visto antes, mas acabei atendendo ao seu pedido. Olhou pra mim, de baixo, com um sorriso no canto do lábio, ao perceber minha timidez, falta de jeito, pra contornar aquela situação embaraçosa.
Com cinco minutos dela me olhando, suas colegas rindo ao lado e no banco detrás dela, meu rosto vermelho, o buzu ainda parado... Peguei minha mochila na sua mão – mal educadamente, eu reconheço... se estiver me ouvindo agora, peço-lhe desculpas – e fui prum lugar um pouco mais à frente dela(s). Acabaram rindo de mim quando eu fiz isso. E riram pra todos no ônibus ouvirem... Pensando bem... ¿Quer saber?: retiro o pedido de desculpa q acabei de fazer!
Aí o engarrafamento acabou, o ônibus andou e eu saltei no mesmo ponto q ela (sem suas colegas, ainda bem). Adiantei os passos e ela tentou me acompanhar. Não conseguindo, me gritou, no meio da rua: “Ei, menino! Meniiino!!” Precisavam ver como ela falava alto, gritava feito uma maluca. Fingi q não ouvi, mas um rapaz bateu em minhas costas e a apontou. Não teve jeito. Tive q olhar.
Veio até a mim. [Vou usar um pseudônimo pra ela: Roberta, pra não queimar mais ainda o filme da menina]. Era meio esquisitinha, desmilingüida, sem muita coisa pra oferecer, mas mesmo assim gostava de se exibir q era uma beleza. Cê precisava ver. Quando chegou perto de mim, acho q a rua toda tinha parado pra ver quem era o tal do “meniiino!”, euzinho aqui. Respirei fundo e fingi q nada de mais estava acontecendo.
– Ô menino, me desculpa, por favor! Eu e minhas colegas somos muito brincalhonas, bestonas assim mesmo, mas a gente não tinha intenção de constranger...
– Não, não se preocupe não. Eu não fiquei constrangido... Impressão sua. Tá tudo bem comigo. / ¿É só isso?... Então tá bom. Tchau!
Virou namoro, uma semana depois, quando peguei aquele mesmo ônibus, naquele mesmo horário, agora sem engarrafamento, sem buzu cheio, sem suas amiguinhas... Sem muita conversa, ela me agarrou e me deu um beijo na boca. Mas um beijo forçado, daqueles bem vexatórios, com agarrão dela, empurrão meu, insistência dela, outro “não” meu, mas no fim, acabei cedendo e até gostando um pouquinho.
Trocamos telefones, endereços e marcamos pra pegar um cinema, no Multiplex do Iguatemi. Depois do filme, ficamos na praça de alimentação do Shopping, comendo uma pizza e nos conhecendo melhor.
¿Mas sabe aquela história de q “a primeira impressão é a q fica”? Pois é. Não era só uma mera impressão minha. De fato éramos um casal muito diferente (entre si). Eu, caladão, na minha, e ela, falando pelos cotovelos, com um fogo impossível de ser apagado. Ela era extremamente, totalmente, irritantemente extrovertida, enquanto eu, já sabe ¿né?
Roberta era capaz de entrar num salão lotado de pessoas, todas desconhecidas, de cabeça erguida e olhando nos olhos delas, sem se abalar nem um pouco. Falava em público como se estivesse conversando com os amigos ou seus familiares e nunca titubeava nos seus discursos. Jamais a vi tremer na base.
Adorava conversar com o povo no meio da rua. Era eu olhar prum lado, q virava de volta, ela já tava em altos papos com algum estranho. Com as senhoras falava sobre novela; já com os senhores, futebol e, às vezes, política, q era o seu forte.
Quando via uma criança, caia matando. Se esbaldava, ficava falando umas bobagens, abraçando, beijando, fazendo caretas e não tava nem aí pros adultos q estavam em volta. Abria o bocão pra dizer aos quatro ventos q o maior sonho de sua vida era ser mãe. O q dava raiva era q sempre q ela dizia isso, a(s) pessoa(s) virava(m) pra olhar pra mim.
Beijava-me o tempo todo. No meio da rua, no supermercado, na farmácia, no restaurante e até dentro da igreja. Vivia falando umas coisas íntimas e, a depender do local e ocasião, ficava me provocando, seduzindo, tentando me excitar, sem quê e nem pra quê, assim, do nada.
Dizia q o q queria com aquilo era me animar, me exortar. Porém estava mais do q claro q a intenção dela ao agir dessa forma, freqüentemente, era me pirraçar, testar minha paciência. Eu tava ligado na dela.
Deixa eu começar a contar logo como foi q esse Amor de verão acabou indo por água abaixo, de uma vez. Quer dizer, de uma vez não. A primeira mais pesada q ela aprontou pra cima de mim, me deixando mais baixo q um cachorro, foi essa aqui:
A gente tava completando um mês de namoro. Pois bem... Ela me chamou pra sair, comer alguma coisa, beber um pouquinho, e eu fui. Me levou lá pro Estaleiro, na Ribeira, pra comer um tal dum pirão de aipim, q dizia ser maravilhoso. De besta, lá fui eu, sem saber o q me aguardava.
Sentamos à mesa de uma das barracas. Pedi uma cerveja, ela pediu o tal do pirão e uma coca, tudo beleza. Lugar lindo, ambiente informal, tranqüilo e nós também na Paz de Jesus. Sem motivo aparente, ela começou a olhar em volta, como q procurasse alguém. Parecia ansiosa. E estava. Só depois da cervejinha e do pirão-zinho q eu vim saber o porquê daquela ansiedade.
Olhou pra mim e sorriu. Pressenti o mal q estava para me acontecer. A voz de Whitney Houston começou a invadir os meus ouvidos, veio chegando mais perto, e mais perto, como se fosse a voz de satanás, o som do apocalipse... Chegou de uma vez e parou do nosso lado. Saía do som de um carro de telemensagem a uns cinco, dez mil decibéis... Gelei!...
Começou a juntar gente perto do lugar. As minhas orelhas foram esquentando, minhas vistas embaçando, até q ela me abraçou.
As pessoas bateram palmas, q dentro de mim equivaliam a tapas bem dados, na cara. Olhei pra ela, azul de vergonha. Por dentro, roxo de raiva, ódio. Mas tentei transparecer só a vergonha mesmo, a qual, dizia ela, já estava bem acostumada. Fiquei calado pelo resto da noite com ela falando cinicamente q não sabia qual era motivo da minha mudança de humor repentina... q eu tava feliz e q agora...
Passei o resto da noite bebendo pra tentar esquecer o vexame das 22 horas. Mais 22 mil anos q viessem depois, não seriam capazes de obter tal êxito. Mas, paciência... É cuidar para q não aconteça nada parecido novamente. (Foi o q pensei q com uma conversa ao pé do ouvido, poderia evitar).
Mas aconteceu de novo e dessa vez foi muito, mas muuuito pior! Na verdade, pior mais pra ela do q pra mim, q deve ter ficado na lembrança dos passageiros daquele ônibus como o “namorado da louca”. Ela não. Ela era “a própria”... Olha só o q aconteceu:
Dia lindo, e eu, Benício, bem bronzeado, bonitão; Ela, Adriana, só bonitinha [ainda bem, já q não chamava muito a atenção dos outros homens]... Praia do Rio Vermelho, num lugarzinho mais afastado, bem longe da muvuca.
Voltando pra casa, távamos nós dois naquele buzu mais ou menos cheio, sentadinhos, na Paz de Jesus, três poltronas atrás do motorista. O ônibus vindo pela avenida Oceânica, passou por Ondina. Enquanto isso, Roberta falava alto, pra todos ouvirem, as coisas “legais” q tínhamos feito na praia... Até aí, tudo bem.
Depois, perguntou se um senhor queria sentar-se no lugar q ela tava. Senti todo mundo olhar pra gente, mas o senhor, imagino q envergonhado, não aceitou: “Não minha fia, pode ficar aí”.
A sua cara de pau era enorme mesmo, mas chegou ao ápice no momento em q o ônibus percorria o caminho entre o Farol da Barra e o Porto.
De repente, enquanto ela olhava através da janela, bateu no meu braço e me perguntou:
– Ô Alvinho, ¿aquele homem ali não tá se afogando não?...
– Não, tá não! Fique calma q daqui a uns quinze minutos a gente já deve tar em casa – respondi, já meio irritado. A mulher não parava de falar, bicho! O tempo todo fazendo chilique...
Mas aquele último foi de lascar. Já perceberam q ela não deu a mínima pro q eu disse ¿não é?
– Tá sim, ¿não tá vendo não é? Meu Deus!... – Falava isso já gritando, praticamente. – Tá sim! Pára o ônibus motor!!! O moço tá se afogando ali na água!!
E se levantou, começou a pular e a passar a mão na cabeça, dizendo:
– Ai meu Deus! Desapareceu de novo... Ai meu Deus, o homem vai morrer! / Pára essa joça logo, motorista! Tem q ir alguém avisar aos salva-vidas.
O motorista parou no meio do caminho, em tempo de causar um acidente grave e alguém morrer até(!), depois q outras duas desequilibradas concordaram com o surto de Roberta. E aí foi um tal de colocar a mão na boca, tapar os olhos das crianças, todo mundo se pendurar nas janelas... Um horror!
Foi ali, no exato momento em q ela desceu do ônibus, q decidi acabar com o nosso romance, finalmente. Já não era tempo. Quando atravessou a rua correndo feito uma louca e quase foi atropelada por um Opala azul q vinha sentido Porto/Farol, foi a última vez q a vi.
Me mudei daqui de Salvador, justamente por causa desse episódio e nunca procurei saber q fim teve Roberta. Não me arrependo. Também, ¿quem é q ia querer continuar com uma mulher q não deixa nem os outros morrerem em paz? Eu, caí fora logo, antes q sobrasse pra mim também q eu não sou maluco.
This entry was posted on 05:11
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1 comentários:
kkkkk... Adorei esse post! ri muito!! continue postando contos!!!
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